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O discurso meritocrático tornou-se senso comum no imaginário popular, obscurecendo as causas estruturais das desigualdades provocadas pelo capitalismo. A eficácia desse discurso apropriado pela direita reside em sua simplicidade e na responsabilização individual pelo sucesso ou fracasso (McNamee & Miller, 2009). A teoria da hegemonia de Gramsci (1971) é fundamental para compreender esse processo.



Gramsci descreve como uma classe dominante mantém seu poder não apenas através da coerção (o aparato repressivo do Estado), mas também através do consentimento das classes subordinadas. Essa dominação ideológica é construída através de instituições da sociedade civil, como escolas, igrejas, mídia e cultura popular, que disseminam os valores, normas e visões de mundo da classe dominante, fazendo com que eles pareçam naturais, universais e de senso comum. Assim, a hegemonia opera no nível da superestrutura, moldando a consciência social e internalizando a dominação, tornando-a menos dependente do uso direto da força.

Para Gramsci, a superação da hegemonia burguesa requer uma longa e árdua “guerra de posição”. Em vez de uma tomada de poder abrupta, como na “guerra de movimento”, as classes subalternas precisam construir uma contra-hegemonia, desenvolvendo sua própria visão de mundo, seus intelectuais orgânicos (ligados às suas experiências e lutas) e suas próprias instituições culturais e políticas. Esse processo envolve a conquista gradual de espaços na sociedade civil, a formação de uma nova vontade coletiva e a criação de um bloco histórico alternativo, capaz de desafiar a ordem estabelecida e construir um novo consenso em torno de um projeto emancipatório. A luta pela hegemonia é, portanto, uma batalha cultural e ideológica tão importante quanto a luta econômica e política.

Em sua obra “Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado” (1970), Louis Althusser desenvolve uma teoria da ideologia que a concebe não como um mero conjunto de ideias falsas ou uma superestrutura dependente da base econômica, mas como uma prática social material e onipresente. Para Althusser, a ideologia funciona através dos Aparelhos Ideológicos do Estado (AIEs), que incluem instituições como a família, a escola, a igreja, a mídia, o sistema jurídico e político, entre outros. Esses aparelhos, embora distintos do Aparelho Repressivo do Estado (ARE) (governo, polícia, exército, prisões), que opera primariamente pela violência, atuam principalmente pela ideologia, inculcando nos indivíduos um conjunto de crenças, valores e práticas que os sujeitam à ordem social existente e reproduzem as relações de produção capitalistas.

A ideologia, para Althusser, tem como função principal a interpelação dos indivíduos em sujeitos. Esse processo ocorre quando somos “chamados” pela ideologia e reconhecemos nosso lugar dentro da ordem social. Essa interpelação é sempre uma “interpelação em sujeitos”, ou seja, somos sempre interpelados como sujeitos livres e autônomos, mesmo que essa liberdade seja ilusória e nossa subjetividade seja construída pelas relações de poder. A ideologia, portanto, não é meramente uma representação falsa da realidade, mas sim o próprio modo como vivemos nossa relação imaginária com as condições reais de nossa existência. Ela é essencial para a reprodução das relações de poder, garantindo a submissão dos indivíduos à ordem estabelecida de forma aparentemente voluntária e natural.

A extrema-direita construiu um bloco ideológico que, através da moral tradicionalista e do discurso religioso, legitima e naturaliza a ordem vigente. Para a esquerda, o desafio é reconstruir narrativas que desnaturalizem essas crenças, resgatando valores de solidariedade, justiça social e igualdade, mas traduzidos em linguagens acessíveis e emocionalmente mobilizadoras.

Yuri Almeida é professor, estrategista político e especialista em campanhas eleitorais.



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