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O Brasil que emergiu da redemocratização não é apenas mais plural; é também mais conflituoso consigo mesmo. À medida que o país passou a se ver como um conjunto de múltiplas identidades — raciais, regionais, de gênero, geracionais, religiosas —, o espelho devolveu uma imagem desconfortável: na média, continuamos sendo uma sociedade conservadora, profundamente religiosa, apegada à família, desconfiada do outro e cética em relação a soluções coletivas.



O Brasil que emergiu da redemocratização não é apenas mais plural; é também mais conflituoso consigo mesmo. À medida que o país passou a se ver como um conjunto de múltiplas identidades — raciais, regionais, de gênero, geracionais, religiosas —, o espelho devolveu uma imagem desconfortável: na média, continuamos sendo uma sociedade conservadora, profundamente religiosa, apegada à família, desconfiada do outro e cética em relação a soluções coletivas.

O grande mérito empírico de Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, está em organizar, com base em quase 10 mil entrevistas (maior levantamento já feito sobre valores, atitudes e percepções no país), esse emaranhado de crenças em 137 indicadores e nove segmentos de identidade. Sociologicamente, porém, o livro nos obriga a ir além da fotografia e perguntar: que regime moral é esse que combina fé intensa, mérito exaltado, cansaço difuso e medo generalizado?

Deus, família e tradição: o núcleo moral
Religião e família continuam sendo os pilares centrais da autoimagem brasileira. A pesquisa mostra que 96% dos brasileiros acreditam que Deus está “no comando” de suas vidas, ideia que atravessa denominações e inclui inclusive parte dos que se declaram sem religião formal. Não se trata apenas de crença abstrata: Deus é percebido como agente ativo, que decide destinos, corrige rumos e oferece sentido a acontecimentos imprevisíveis.

No plano da vida cotidiana, esse Deus se encontra com a família, que 96% definem como “a coisa mais importante da vida”. A família é o ponto de partida e de chegada: lugar de afeto, instância de cuidado, rede de proteção quando Estado e mercado falham. Mesmo quando o modelo tradicional é relativizado — 90% associam família a amor, “independentemente do modelo” —, ela permanece no centro das motivações, expectativas e decisões.

A pesquisa traz um dado bastante relevante para explicar a posição central ocupada pela família na vida dos brasileiros. “Ver a família feliz” é o principal sonho de 19% dos entrevistados. A felicidade da família está à frente de sonhos como ter saúde (17%) ou ter uma casa própria (11%).

Esse núcleo moral — Deus acima de tudo, família em primeiro lugar — sustenta um tipo específico de conservadorismo. As normas de gênero continuam marcadas por papéis tradicionais: espera-se que os homens sejam provedores e protetores, que as mulheres conciliem cuidado, coragem e contribuição financeira. A homossexualidade é majoritariamente vista como injustificável, ainda que tolerada à distância; o racismo é reconhecido “na sociedade”, mas negado em nível individual, sobretudo entre brancos e gerações mais velhas.

Individualismo meritocrático e “empreendedorismo de exaustão”
Se fé e família organizam o pertencimento, o individualismo organiza a responsabilidade. Três em cada quatro brasileiros afirmam que só podem contar consigo mesmos. Esse dado não descreve apenas uma percepção; ele aponta para uma moralidade: a ideia de que a vida é, em última instância, uma prova de esforço individual.

Isso se expressa de forma cristalina na atitude diante das políticas sociais. A maioria resiste a políticas de redistribuição de renda focalizadas nos mais pobres, por entender que “só se deve ajudar quem faz por merecer”. Ricos e pobres pensam de modo parecido: mesmo entre os de renda mais baixa, predomina a desconfiança em relação a auxílios vistos como estímulo à preguiça. Ao mesmo tempo, muitos acreditam que os ricos são ricos sobretudo por terem nascido em famílias ricas, não por mérito extraordinário.

A contradição é reveladora: o fracasso do outro é atribuído à falta de merecimento; o sucesso do outro, à sorte ou ao favorecimento; já o nosso próprio fracasso é explicado por “desfavorecimento” e o eventual sucesso, por esforço. Estamos diante de um individualismo moralizado, que funciona como lente seletiva: endurece o julgamento sobre quem recebe ajuda, mas suaviza o escrutínio sobre a estrutura que concentra renda e oportunidades.

É nesse contexto que Nunes fala em “empreendedorismo de exaustão”. Com o avanço da informalização e a multiplicação de “bicos”, 83% dos brasileiros dizem querer ter um negócio próprio, não ter patrão. A figura do empreendedor é exaltada como ideal de autonomia, mas, na prática, milhões se tornam microempreendedores não por vocação, e sim por necessidade, como resposta defensiva à queda de renda e à fragilização do emprego formal. Assim, muitos empreendem motivados pelo medo dos problemas causados pela falta de dinheiro e não pelo sonho de uma vida financeira mais confortável.
Trabalha-se mais para manter a renda e, ao estabilizá-la, assume-se ainda mais risco.

O resultado é uma cultura do esforço permanente, que gera cansaço difuso: 51% relatam espontaneamente emoções negativas ligadas ao cansaço, frustração e saturação. Nesse arranjo, a meritocracia não é apenas narrativa; é mecanismo de autopreservação psíquica: acreditar que “tudo depende de mim” é uma forma de suportar um ambiente de competição feroz, instabilidade e baixa proteção social.

Medo, insegurança e punitivismo
Ao lado da fé e do mérito, o medo compõe o eixo emocional do Brasil contemporâneo. Violência, criminalidade e tráfico de drogas aparecem como principal preocupação nacional, qualquer que seja a classe social. Mais da metade dos brasileiros afirma não se sentir segura ao andar pelas ruas de sua cidade.
Interessante notar que essa sensação de insegurança não depende diretamente da incidência de crimes no entorno imediato. Muitas pessoas que vivem em regiões menos violentas relatam níveis de medo semelhantes aos que moram em áreas mais críticas. Essa desconexão sugere que a sensação de insegurança é também produto de narrativas disseminadas por meios de comunicação, redes sociais e discursos políticos.​

Esse cenário alimenta um consenso punitivista. A crença majoritária é que a solução para o crime não está em políticas preventivas, mas em punições mais duras: redução da maioridade penal, ampliação de penas, simpatia com a pena de morte para crimes hediondos. Ao mesmo tempo, a população não vê nas armas individuais a melhor resposta; prefere uma polícia forte e equipada, com alto grau de confiança depositado na instituição.

Nunes sintetiza esse círculo vicioso: o medo gera desconfiança, a desconfiança alimenta o punitivismo, o punitivismo promete ordem, mas raramente cumpre, o que retroalimenta o medo. Em termos sociológicos, o Estado desejado não é mínimo, mas seletivamente forte: fraco para regular mercado e desigualdades, forte para punir e vigiar.

Orgulho natural, vergonha social
Quando olham para o país, os brasileiros sentem orgulho principalmente daquilo que “não fizemos”: praias, florestas, paisagens “abençoadas por Deus”. O Brasil natural é fonte de orgulho; o Brasil social — da violência, da corrupção, do “jeitinho” — é motivo de vergonha.

O “jeitinho brasileiro”, frequentemente romantizado como traço criativo, aparece na pesquisa com avaliação predominantemente negativa: associado a malandragem, corrupção e desonestidade. Ainda assim, uma parcela significativa o define como “estratégia de sobrevivência”, isto é, como forma de navegar em um sistema percebido como hostil e ineficiente.

Há aí uma ambivalência estrutural: condenamos a transgressão em abstrato, mas relativizamos comportamentos “flexíveis” quando percebemos o contexto como injusto. Trata-se de uma moralidade situacional, que convive com o discurso de honestidade rígida, mas o adapta às necessidades práticas da sobrevivência.

Ideologia, rótulos e Estado forte
Quase todos os brasileiros hoje se situam no eixo esquerda–direita, mas essa autoidentificação não se traduz em coerência programática. A pesquisa mostra que, embora sejamos um país de centro-direita em valores, amplamente conservador em costumes, há forte adesão a ideias estatistas típicas da esquerda: 98% consideram dever do Estado garantir educação e saúde gratuitas; 96% acham que o Estado deve assegurar boas condições de vida para todos.

Na prática, isso significa que muitos brasileiros que se declaram de direita rejeitam o Estado mínimo e defendem forte presença estatal em áreas-chave; enquanto parte dos que se declaram de esquerda mantém posições conservadoras em temas de costumes, família e segurança. Os rótulos ideológicos funcionam mais como marcadores de pertencimento afetivo — “de que lado estou” na polarização — do que como expressão de doutrinas consistentes.​

A disputa central, portanto, não é entre dois projetos ideológicos fechados, mas entre quem consegue alinhar moral (família, fé, ordem), segurança (punitivismo eficaz) e bem-estar (Estado que funciona) de maneira pragmática. Em outras palavras: quem convence o eleitor de que, além de pensar como ele, é capaz de fazer as coisas “funcionarem”.

O que nos une: um consenso conservador cansado
Nunes propõe uma síntese do que nos une como país: religiosidade intensa, centralidade da família, individualismo meritocrático, cansaço com a luta diária e preocupação generalizada com segurança. A isso se soma uma desconfiança crônica em relação ao outro, às instituições e à política, um machismo persistente e uma “honestidade relativa”, que julga com rigor os desvios dos outros, mas relativiza os próprios.

Esse “consenso conservador cansado” convive com fissuras profundas. Dividimo-nos sobre modelos familiares, sexualidade, papel das mulheres, reconhecimento do racismo, extensão do assistencialismo e grau de intervenção do Estado na economia. A polarização política intensifica essas divisões, colando sobre elas rótulos de esquerda e direita, petismo e antipetismo, mas não as cria do zero.​
Nove segmentos, muitos Brasis

A grande inovação classificatória do livro está na identificação de nove segmentos identitários. Eles não substituem classes ou clivagens tradicionais, mas aumentam a nossa capacidade de entender com mais profundidade como combinações de fé, trabalho, território e consumo de informação produzem “bolhas” relativamente consistentes.

Os conservadores cristãos, maior grupo (27%), são majoritariamente evangélicos e católicos praticantes, com forte valorização da ordem, da obediência e da hierarquia familiar. Para eles, a defesa da família é pauta central, papéis de gênero são mais rígidos e a segurança pública ocupa lugar prioritário. Votaram em massa em Jair Bolsonaro e tendem a rejeitar a esquerda, especialmente o PT.​

Os dependentes do Estado (23%) concentram-se no Norte, Nordeste e periferias do Sudeste, com menor poder de compra. São os que mais defendem um Estado forte no combate à desigualdade, aceitando inclusive aumento de impostos para financiar políticas redistributivas. Ao mesmo tempo, compartilham com o restante da sociedade a suspeita sobre beneficiários “preguiçosos”, o que revela o quanto o discurso meritocrático penetra até entre os mais vulneráveis.

O agro (13%) é mais que setor econômico: é ethos cultural. Concentrado no Centro-Oeste, Sul e interior de estados como São Paulo e Minas, reúne grandes produtores, trabalhadores rurais e pessoas ligadas à cultura sertaneja. Em termos de valores, é fortemente tradicionalista e conservador, alinhado a pautas como flexibilização de armas, afrouxamento de regulações ambientais e oposição ao governo Lula.

Os progressistas (cerca de 12%) reúnem mais mulheres, jovens e pessoas de renda acima da média, com forte sensibilidade para pautas de minorias, direitos das mulheres, diversidade sexual e crise climática. Informam-se menos pela TV e mais por canais digitais, e votaram majoritariamente em Lula em 2022. Em normas de gênero e família, são o grupo mais distante da média nacional.​

Os militantes de esquerda (7%) formam o segmento mais ancorado em partido político, com alta escolaridade e forte interesse por política. Desde o impeachment de Dilma Rousseff, vivem a política em chave de revanche e polarização: enxergam o mundo por meio do conflito “nós contra eles”, atribuindo méritos quase exclusivos ao governo Lula e demonizando a oposição.​

A elite empresarial (6%) é composta por brancos, mais velhos, concentrados no Sul e Sudeste. Preferem agendas econômicas liberais, privatizações e redução do papel do Estado na economia, e são críticos a benefícios sociais focalizados. Curiosamente, embora se considerem “modernos” e hiperconectados, figuram entre os grupos que menos colocam Deus no centro da vida — ainda assim, não rompem completamente com a matriz religiosa majoritária.

Os liberais sociais (5%) ocupam uma posição “morna” em meio à polarização. Defendem liberdade individual, voto não obrigatório, redução de impostos e do tamanho do Estado, mas também valorizam a democracia, a imagem internacional do país e a moderação política. Votaram em nomes como Simone Tebet e sonham com uma “terceira via” que rompa com a lógica binária do debate público.
Os empreendedores individuais (5%) constituem a face subjetiva da nova economia de aplicativos e informalidade. Em maioria homens de classe média, sobretudo no Sul e Sudeste, valorizam fortemente o esforço pessoal, são refratários a sindicatos e instituições tradicionais e têm visão negativa do Estado, visto como obstáculo e não como proteção. São também terreno fértil para discursos de autoajuda financeira e promessas de enriquecimento rápido difundidas por influenciadores digitais.​

Por fim, a extrema direita (3%) agrega aqueles que, além de valores conservadores em costumes, expressam baixa ou nenhuma adesão à democracia como valor. Defendem um poder central forte, nacionalista, por vezes autoritário, são hostis à participação do Estado em políticas sociais e ambientais e demonstram simpatia por regimes ditatoriais. Apesar de minoritário — cerca de seis milhões de pessoas —, esse grupo exerce influência desproporcional no debate público, especialmente nas redes.

Entre a média e a fratura
O quadro que emerge dessas “nove bolhas” é o de um país que compartilha um chão moral comum — fé, família, mérito, medo —, mas se organiza politicamente em torno de experiências muito distintas de mundo. Um empreendedor individual de classe média urbana, um dependente do Estado do interior nordestino, uma progressista jovem de capital e um conservador cristão de periferia metropolitana partilham, em alguma medida, crenças sobre Deus, família e esforço; mas divergem profundamente sobre como o Estado deve agir, quem merece ser ajudado, que direitos devem ser ampliados e que tipo de ordem deve prevalecer.

Teoricamente, isso sugere que o Brasil não pode mais ser lido apenas em termos de “classes” ou “blocos ideológicos”, recortes rasos para entender a complexidade e diversidade que caracteriza a formação dos brasileiros. Há um ecossistema de valores que combina elementos do neoliberalismo, do tradicionalismo religioso e do estatismo desenvolvimentista. O resultado é um país onde se pede mais Estado para punir e proteger, menos Estado para tributar e regular, e quase nenhum Estado para redistribuir de forma focalizada.

O espelho como desafio
Brasil no Espelho mostra um país que se vê, mas nem sempre se reconhece: conservador, individualista, cansado, punitivista e, ao mesmo tempo, estatista em demandas básicas. Para a sociologia, o desafio não é apenas descrever esse mosaico, mas compreender como ele se transforma quando novas crises econômicas, tecnológicas e políticas se somam à exaustão já instalada.

O espelho entrega uma imagem incômoda: uma sociedade que sacraliza a fé, mas desconfia da solidariedade; que idolatra o mérito, mas naturaliza privilégios; que teme a violência, mas acredita mais na punição do que na prevenção; que reclama do Estado, mas espera dele quase tudo. O que faremos com essa imagem — reforçá-la ou tensioná-la — talvez seja a principal questão política brasileira da próxima década.

Yuri Almeida é estrategista político, professor e especialista em campanhas eleitorais

Guilherme Barbosa é jornalista especialista em Comunicação Pública e MBA em Comunicação e Marketing



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Resumo das Políticas

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